Meu nome é S., nasci em 29 de setembro de 1957.
A minha vida como a vida da maioria das pessoas que viviam no nosso bairro naquela época, era quase que de extrema miséria, não existia muitas opções de trabalho para nossos pais, então a gente passava muitas necessidades.
Lembro-me bem a partir de 1964, foi quando caiu uma grande nevasca em nossa região, ficou tudo coberto pela neve, em frente a minha casa tinha uma plantação de acácias, grande parte delas caiu com o peso da neve.
Na minha infância eu aproveitei bastante, jogava muito futebol, tinha muitos campinhos para a gente jogar, tinha as sanguinhas para nadar e pescar, naquela época se podia caçar passarinhos, era bom aqueles tempos, mesmo quando a gente ia brincar e ao voltar para casa não tinha nem um pedaço de pão para comer, deitava e rezava para no outro dia ter.
A minha mãe, agora com 84 anos, foi uma mulher que eu não tenho palavras para escrever ou falar o que ela seria, por tudo o que ela passou e suportou para nos criar. Podem até pensar que a frase é feita, mas quantas vezes ela deixou de comer para deixar para gente comer. De noite deitávamos na cama, o colchão era cheio de palhas desfiadas, era bem quentinho, então eu e era eu e minha irmã menor deitávamos e ficávamos ouvindo minha mãe contar aquelas anedotas de antigamente, dos tempos dela.
O meu pai era uma pessoa legal, guardo poucas lembranças, mas lembro com carinho dele, poucas eu digo por que ele sempre foi um pai ausente, só pensava na bebida e maltratava a minha mãe, o dinheiro que ele ganhava no trabalho dele, dificilmente se preocupava em ajudar em casa, talvez por esses motivos que meus irmãos não gostavam dele. Ele era um cara trabalhador, mas para nós, os filhos ele não era ruim, nunca nos bateu, apenas dava conselhos, morreu com 56 anos por causa da bebida. A partir daí minha mãe ficou mais descansada, acho que por tudo que ela passou, preferiu passar o resto da sua vida sozinha.
Comecei a estudar no colégio Cacilda Pereira, onde fiquei da primeira até a quarta série, depois fui para o colégio dos irmãos maristas, mas acabei voltando para o Cacilda Pereira, onde fiz a quinta série. Fiz o exame de admissão para a sexta série, passei e fui para o ginásio agrícola, mas eu já não queria mais estudar, eu já estava crescendo e começando a entender as coisas, sentia vergonha de não ter as condições que os meus amigos tinham, então comecei a faltar aulas, o diretor uma pessoa muito legal, chamou a minha mãe e eu para saber o motivo das faltas, então eu falei que não era por falta de vontade e sim vergonha, pois me faltava tudo, calçados roupas, material escolar... e minha mãe e eu sabíamos que ela não podia me dar, e com o meu pai não podíamos contar. Então o diretor me ofereceu o material de graça na secretaria, na hora eu aceitei, mas depois acabei desistindo mais por orgulho, na ocasião eu não pensei no prejuízo que isso ia me causar.
Então comecei a vadiar, fazia alguns biscates aqui e outros ali nas colônias, aos 16 anos minha mãe conseguiu uma licença para mim trabalhar fora de Guaporé, foi a minha primeira aventura, a cidade era Castro no estado do Paraná, dali fui para São José dos Campos, trabalhei em até em Congonhas do Campo em Minas Gerais, e assim fui seguindo: Florianópolis, Paraná - Laranjeiras do Sul, Guarapuava, depois em Porto Alegre.
Em Porto Alegre fiquei de 1980 a 1982, onde trabalhei em restaurantes, até que fiquei doente e tive que voltar a Guaporé. Voltei numa pior, onde eu trabalhava não assinavam a carteira e eu não guardava dinheiro só pensava em aproveitar a vida.
Em Guaporé nem tive tempo de me recuperar, trabalhei no curtume e depois em obras, foi nesse tempo que conheci a minha mulher. Com três meses de namoro ela engravidou e fomos morar juntos, mas poucos dias depois começou um problema que mudou o rumo da minha vida, uma aventura que eu tinha apareceu com uma criança e eu tive que registrar, isso me criou uma confusão muito grande, e também a minha sogra não me aceitava, chegou a me denunciar no juizado de menores, dizendo que eu era de tudo e que não prestava, mas provei ao contrário.
Depois que casamos resolvi procurar emprego fora, fui à Estância Velha, depois à Porto Alegre, onde consegui o emprego de zelador de um edifício, mas não podíamos ter filhos, então mentimos, pois o nosso já tinha nascido, deixamos ele com a madrinha e fomos, depois a gente ia resolver.
Em 15 dias consegui outro emprego então pudemos levar o bebê, mas daí a minha mulher engravidou de novo, quase fomos ao desespero porque um com seis meses e outro na barriga já era demais, nós não tínhamos nada. Lembro que para fazer comida nós colocávamos álcool em uma lata de azeite vazia e botava fogo, cozinhava o arroz e depois a carne, para dormir tinha em um tapete no chão...
Depois que minha mulher teve o segundo filho, com três meses foram para a creche e ela conseguiu emprego, então tudo começou a mudar, conseguimos comprar as coisas para dentro de casa e um terreno, que hoje moramos em cima.
Em1988 começamos a pensar em sair de Porto Alegre, as crianças estavam crescendo, tinha pouco espaço no apartamento e eu não queria criá-los ali, eles não tinham liberdade e também eu sabia que no interior eles seriam mais livres e teriam uma qualidade de vida melhor.
Então resolvi estudar, comecei a fazer um curso profissionalizante no Senai. Estudei para um concurso, 19 vagas para calculo técnico e desenho mecânica, na época era grátis, fiz as provas, tinha 300 candidatos e eu consegui uma vaga. Depois fiz outra prova para ajustador mecânico e matei a pau, então quando comecei o curso eu já trabalhava em dois empregos. Trabalhava das três da manhã até as oito horas num e das oito às seis da tarde em outro, tomava banho comia alguma coisa e pegava um ônibus até o centro depois o trem metropolitano até o Senai, chegava em casa quase meia noite, dormia mesmo só no fim de semana, mas conclui o curso, pequei o certificado e em agosto de 1989 nos mudamos para Farroupilha.
Eu já estava trabalhando há 20 dias, quando meu cunhado nos deu a notícia que minha sogra tinha se suicidado, viemos para Guaporé no velório, daí nossos cunhados pediram para que nós viéssemos morar junto com meu sogro, pois ele iria ficar sozinho, assim fizemos a mudança com a promessa de que ficaríamos morando na casa até construirmos a nossa, pois já tínhamos o terreno.
Consegui emprego na Sulmaq em 1990, dois anos após meu sogro morrer. Logo meus cunhados quebraram a promessa e nos pediram a casa, então falei com meu patrão pedindo para sair da empresa, pois precisava de dinheiro para construir, mas ele se ofereceu para me emprestar o dinheiro e eu aceitei, pois já tinha uma quantia comigo. Comecei a obra, paguei somente para levantar e cobrir a casa, o resto eu e minha esposa fizemos tudo, desde o reboco até a parte de madeira, até que finalmente mudamos para nossa casa.
Em 1997 nasceu o Felipe. Aconteceu uma coisa muito interessante, sonhei que um filhote de leão queria entrar em casa e eu fechei todas as portas, mas deixei uma janela aberta e ele entrou. Quando minha esposa falou que estava grávida lembrei do sonho e fiz as contas do mês em que ele iria nascer, deu em agosto, então conclui que seria um menino com o signo de leão. Fizemos uma eleição para a escolha do nome e deu Felipe, nem escolhemos nome para menina, pois tínhamos certeza que seria um menino.
Nesse mesmo ano meu filho mais velho foi para o seminário, eu perdi o emprego e fui trabalhar em Bento Gonçalves, onde fiquei 2 anos e meio e voltei para a Sulmaq, onde estou até hoje.
O filho que foi para o seminário já esta formado em filosofia, morou em Medellín na Colômbia, Salamanca na Espanha e em Roma, atualmente está em São Paulo e em agosto volta a Roma para estudar teologia. Já o Everton trabalha em Bento Gonçalves e estuda engenharia mecânica. O Felipe tem 10 anos e estuda no Jairo Brum, é um menino muito inteligente.
Eu tenho muito orgulho dos meus filhos, às vezes acho que nem mereço a família que tenho, devo muito à eles e a minha esposa, faço e farei tudo que puder fazer por eles.
Eu espero que eles continuem sendo pessoas honestas e com um bom caráter como sempre tiveram, pois eu e minha esposa, mesmo com tudo que passamos, nunca precisamos ser desonestos para alcançar nossos objetivos e nunca precisamos bater neles para educa-los.
Eu hoje estou com 50 anos e 25 anos de casados e se precisasse começaria tudo outra vez.
A minha vida como a vida da maioria das pessoas que viviam no nosso bairro naquela época, era quase que de extrema miséria, não existia muitas opções de trabalho para nossos pais, então a gente passava muitas necessidades.
Lembro-me bem a partir de 1964, foi quando caiu uma grande nevasca em nossa região, ficou tudo coberto pela neve, em frente a minha casa tinha uma plantação de acácias, grande parte delas caiu com o peso da neve.
Na minha infância eu aproveitei bastante, jogava muito futebol, tinha muitos campinhos para a gente jogar, tinha as sanguinhas para nadar e pescar, naquela época se podia caçar passarinhos, era bom aqueles tempos, mesmo quando a gente ia brincar e ao voltar para casa não tinha nem um pedaço de pão para comer, deitava e rezava para no outro dia ter.
A minha mãe, agora com 84 anos, foi uma mulher que eu não tenho palavras para escrever ou falar o que ela seria, por tudo o que ela passou e suportou para nos criar. Podem até pensar que a frase é feita, mas quantas vezes ela deixou de comer para deixar para gente comer. De noite deitávamos na cama, o colchão era cheio de palhas desfiadas, era bem quentinho, então eu e era eu e minha irmã menor deitávamos e ficávamos ouvindo minha mãe contar aquelas anedotas de antigamente, dos tempos dela.
O meu pai era uma pessoa legal, guardo poucas lembranças, mas lembro com carinho dele, poucas eu digo por que ele sempre foi um pai ausente, só pensava na bebida e maltratava a minha mãe, o dinheiro que ele ganhava no trabalho dele, dificilmente se preocupava em ajudar em casa, talvez por esses motivos que meus irmãos não gostavam dele. Ele era um cara trabalhador, mas para nós, os filhos ele não era ruim, nunca nos bateu, apenas dava conselhos, morreu com 56 anos por causa da bebida. A partir daí minha mãe ficou mais descansada, acho que por tudo que ela passou, preferiu passar o resto da sua vida sozinha.
Comecei a estudar no colégio Cacilda Pereira, onde fiquei da primeira até a quarta série, depois fui para o colégio dos irmãos maristas, mas acabei voltando para o Cacilda Pereira, onde fiz a quinta série. Fiz o exame de admissão para a sexta série, passei e fui para o ginásio agrícola, mas eu já não queria mais estudar, eu já estava crescendo e começando a entender as coisas, sentia vergonha de não ter as condições que os meus amigos tinham, então comecei a faltar aulas, o diretor uma pessoa muito legal, chamou a minha mãe e eu para saber o motivo das faltas, então eu falei que não era por falta de vontade e sim vergonha, pois me faltava tudo, calçados roupas, material escolar... e minha mãe e eu sabíamos que ela não podia me dar, e com o meu pai não podíamos contar. Então o diretor me ofereceu o material de graça na secretaria, na hora eu aceitei, mas depois acabei desistindo mais por orgulho, na ocasião eu não pensei no prejuízo que isso ia me causar.
Então comecei a vadiar, fazia alguns biscates aqui e outros ali nas colônias, aos 16 anos minha mãe conseguiu uma licença para mim trabalhar fora de Guaporé, foi a minha primeira aventura, a cidade era Castro no estado do Paraná, dali fui para São José dos Campos, trabalhei em até em Congonhas do Campo em Minas Gerais, e assim fui seguindo: Florianópolis, Paraná - Laranjeiras do Sul, Guarapuava, depois em Porto Alegre.
Em Porto Alegre fiquei de 1980 a 1982, onde trabalhei em restaurantes, até que fiquei doente e tive que voltar a Guaporé. Voltei numa pior, onde eu trabalhava não assinavam a carteira e eu não guardava dinheiro só pensava em aproveitar a vida.
Em Guaporé nem tive tempo de me recuperar, trabalhei no curtume e depois em obras, foi nesse tempo que conheci a minha mulher. Com três meses de namoro ela engravidou e fomos morar juntos, mas poucos dias depois começou um problema que mudou o rumo da minha vida, uma aventura que eu tinha apareceu com uma criança e eu tive que registrar, isso me criou uma confusão muito grande, e também a minha sogra não me aceitava, chegou a me denunciar no juizado de menores, dizendo que eu era de tudo e que não prestava, mas provei ao contrário.
Depois que casamos resolvi procurar emprego fora, fui à Estância Velha, depois à Porto Alegre, onde consegui o emprego de zelador de um edifício, mas não podíamos ter filhos, então mentimos, pois o nosso já tinha nascido, deixamos ele com a madrinha e fomos, depois a gente ia resolver.
Em 15 dias consegui outro emprego então pudemos levar o bebê, mas daí a minha mulher engravidou de novo, quase fomos ao desespero porque um com seis meses e outro na barriga já era demais, nós não tínhamos nada. Lembro que para fazer comida nós colocávamos álcool em uma lata de azeite vazia e botava fogo, cozinhava o arroz e depois a carne, para dormir tinha em um tapete no chão...
Depois que minha mulher teve o segundo filho, com três meses foram para a creche e ela conseguiu emprego, então tudo começou a mudar, conseguimos comprar as coisas para dentro de casa e um terreno, que hoje moramos em cima.
Em1988 começamos a pensar em sair de Porto Alegre, as crianças estavam crescendo, tinha pouco espaço no apartamento e eu não queria criá-los ali, eles não tinham liberdade e também eu sabia que no interior eles seriam mais livres e teriam uma qualidade de vida melhor.
Então resolvi estudar, comecei a fazer um curso profissionalizante no Senai. Estudei para um concurso, 19 vagas para calculo técnico e desenho mecânica, na época era grátis, fiz as provas, tinha 300 candidatos e eu consegui uma vaga. Depois fiz outra prova para ajustador mecânico e matei a pau, então quando comecei o curso eu já trabalhava em dois empregos. Trabalhava das três da manhã até as oito horas num e das oito às seis da tarde em outro, tomava banho comia alguma coisa e pegava um ônibus até o centro depois o trem metropolitano até o Senai, chegava em casa quase meia noite, dormia mesmo só no fim de semana, mas conclui o curso, pequei o certificado e em agosto de 1989 nos mudamos para Farroupilha.
Eu já estava trabalhando há 20 dias, quando meu cunhado nos deu a notícia que minha sogra tinha se suicidado, viemos para Guaporé no velório, daí nossos cunhados pediram para que nós viéssemos morar junto com meu sogro, pois ele iria ficar sozinho, assim fizemos a mudança com a promessa de que ficaríamos morando na casa até construirmos a nossa, pois já tínhamos o terreno.
Consegui emprego na Sulmaq em 1990, dois anos após meu sogro morrer. Logo meus cunhados quebraram a promessa e nos pediram a casa, então falei com meu patrão pedindo para sair da empresa, pois precisava de dinheiro para construir, mas ele se ofereceu para me emprestar o dinheiro e eu aceitei, pois já tinha uma quantia comigo. Comecei a obra, paguei somente para levantar e cobrir a casa, o resto eu e minha esposa fizemos tudo, desde o reboco até a parte de madeira, até que finalmente mudamos para nossa casa.
Em 1997 nasceu o Felipe. Aconteceu uma coisa muito interessante, sonhei que um filhote de leão queria entrar em casa e eu fechei todas as portas, mas deixei uma janela aberta e ele entrou. Quando minha esposa falou que estava grávida lembrei do sonho e fiz as contas do mês em que ele iria nascer, deu em agosto, então conclui que seria um menino com o signo de leão. Fizemos uma eleição para a escolha do nome e deu Felipe, nem escolhemos nome para menina, pois tínhamos certeza que seria um menino.
Nesse mesmo ano meu filho mais velho foi para o seminário, eu perdi o emprego e fui trabalhar em Bento Gonçalves, onde fiquei 2 anos e meio e voltei para a Sulmaq, onde estou até hoje.
O filho que foi para o seminário já esta formado em filosofia, morou em Medellín na Colômbia, Salamanca na Espanha e em Roma, atualmente está em São Paulo e em agosto volta a Roma para estudar teologia. Já o Everton trabalha em Bento Gonçalves e estuda engenharia mecânica. O Felipe tem 10 anos e estuda no Jairo Brum, é um menino muito inteligente.
Eu tenho muito orgulho dos meus filhos, às vezes acho que nem mereço a família que tenho, devo muito à eles e a minha esposa, faço e farei tudo que puder fazer por eles.
Eu espero que eles continuem sendo pessoas honestas e com um bom caráter como sempre tiveram, pois eu e minha esposa, mesmo com tudo que passamos, nunca precisamos ser desonestos para alcançar nossos objetivos e nunca precisamos bater neles para educa-los.
Eu hoje estou com 50 anos e 25 anos de casados e se precisasse começaria tudo outra vez.
Um comentário:
Que história ein meu amigo? De arrebiar. Tu foi um cara muito corajoso que se deu bem, mas você merece. Amei a tua história. Quando você falou do teu pai, eu me lembrei do meu, ele era bem parecido. Torço muito por ti, espero que sejas muito feliz com a tua familia, pois você merece. Obrigado por ter contribuido com a tua história, ele servirá de lição para muitas pessoas, inclusive para mim. Você vai longe.
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